quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Museu de Arte Contemporânea (Funchal)

Levar os miúdos ao museu em dia quente de verão é uma tarefa que envolve alguma habilidade persuasiva. Argumentos do tipo depois-comes-um-gelado ou amanhã-vamos-ao-cinema costumam ser suficientes. Desta vez bastou o já conhecido, mas nem sempre convincente: é-óptimo-conhecer-os-museus-das cidades-que-se-visitam. (Eles crescem...)
Gostei especialmente da zona velha do Funchal: ruas estreitas de calçada madeirense, ou seja, pedras roladas colocadas, com mestria, umas ao lado das outras; pequenos edifícios de um ou dois andares com altas janelas encastradas nas tradicionais robustas cantarias cinzentas e portadas verdes. A cada duas portas um restaurante convidativo publicita o melhor da cozinha regional: bife de atum, filete de espada, lapas…
O museu situa-se no Forte de São Tiago, ali mesmo encostado ao mar, em acentuado contraste, caiado de amarelo. O monumento esconde frescos corredores de paredes grossas de pedra a descoberto, onde passeámos e nos divertimos a tirar fotografias. Subimos e descemos escadas, que nos conduziram a pequenas salas de paredes brancas com alguns quadros pendurados.
No topo uma vista magnífica sobre o mar e a encosta acima do Funchal.
É só isto? Perguntam os miúdos desiludidos. Pois parece que sim, este museu é assim, pequenino. (Eles crescem e ficam mais exigentes. Boa!)
O espaço que o acolhe é efectivamente incrível e não dei o tempo por perdido. O espólio cresce com o tempo… Ficamos à espera… voltamos mais tarde, daqui a uns anos…



terça-feira, 12 de agosto de 2008

Fomos de Nau

A Nau Santa Maria de Colombo, atracada no cais com ar imponente, era a anfitriã de quem tinha optado por uma manhã diferente. A fazer lembrar as embarcações do tempo dos descobrimentos, com tripulação a condizer que dava as boas-vindas, Santa Maria soltou as amarras e fez-se ao oceano. Para trás deixou terra, um anfiteatro de casas brancas cobertas de telhas vermelhas, com cantarias em basalto e portadas em verde-escuro; muitas árvores espalhadas entre as casas e um aglomerado de arvoredo nas bancadas de topo, penduradas nas brandas e ligeiras nuvens opacas.
O sereno mar, azul-escuro como nunca vira, facilitava o deslize pela sua acalmia, sem boicotar a boa-disposição dos turistas.
Uns espanhóis, de voz afinada e mãos em batida compassada, animavam os viajantes com os seus cantares tradicionais.
De repente, todos pararam e dirigiram o olhar para estibordo. Eu não via nada de extraordinário, até que um ténue repuxo saído das águas me alerta para a presença de uma baleia. Ainda vislumbrei a cauda ao enfiar-se no oceano. Velozmente nos deixou e retomou os seus afazeres quotidianos.
De olhos postos no mar, contemplando a sua infinitude, dou conta do rasgo no horizonte feito pelas Desertas e pelas Selvagens, ali entre céu e mar a confundirem-se com as nuvens esfarrapadas. É nesse instante que mal posso acreditar no que os meus olhos me asseguram: golfinhos, golfinhos… olha dois ali, olha mais um… ali ao fundo… olha na direcção da minha mão… lindos! A emoção alvoraçou-me de tal forma que o Francisco comentou: “Estás histérica, mamã! Vais pôr isto no blog, não vais?” A verdade é que o sentimento era geral. Enormes sorrisos de contentamento enfeitavam as faces de todos os que eu via de soslaio e a excitação de poder registar os mergulhos nas máquinas fotográficas denunciavam a efervescência do estado de espírito. Eram imensos golfinhos ruazes, que se deslocavam ao largo da Madeira. Não são residentes, mas nem isso os inibiu de se mostrarem a curiosos humanos que vibraram com a sua aparição.
A jornada continuou.
Visitámos a embarcação: um quarto, uma capela, um bar. Um pequeno cão-marinheiro, um papagaio e uma arara fizeram as delícias dos mais novos.
Chegados ao Cabo-girão houve permissão para banhos. Os mais afoitos atiravam-se da proa, ou da ré, os mais cautelosos preferiram descer por uma escada. Todos nadaram em águas límpidas e mornas que, vistas de cima, se exibiam em tons de azul-turquesa.
A costa escarpada e praticamente deserta deu-nos uma ideia de como a ilha era quando foi descoberta: uma enorme rocha emergida do oceano.
De regresso, provámos vinho da Madeira e bolo de mel embalados pelo movimento da deslocação. Mais palmas e cantares espanhóis. Mais mar azul-escuro. Mais infinito. Mais encanto. Os golfinhos não voltaram. O aprazimento interior também não o exigia.
Mais uma boa recordação.





domingo, 10 de agosto de 2008

Uma manhã (em madeirense)

O céu forrado e o mar mexido dão-me maior capacidade de observação e de escuta. Ao meu lado, uma mãe dá bronzeador no filho ainda babé. As avós bilhardam e outra mãe dá uma resonda na filha mais velha.
Os turistas vão de nau.
No bar, com o tempo quente, não apetece uma chinesa, a Filhipa prefere uma brisa-maracujá.
Se isto pega de moda, ao jantar, espera-me bizalhinho com semilhas e vaginhas. Com o café posso comer uma malassada.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Museu de Arte Sacra

O acervo do Museu de Arte Sacra do Funchal é bastante rico, reflectindo também a abundância da aristocracia comerciante do séc. XV, caracterizada pelo luxo, que nasce e cresce no seio dos produtores e exportadores de açúcar. Estas famílias contribuíram para a acumulação de obras de alto valor material e artístico nas igrejas da Madeira, ao doarem ao santo que veneravam quadros, cálices, crucifixos, etc.
São imensas as peças de ouro e prata muito trabalhadas, com aplicações de esmaltes e pedras semi-preciosas: bandejas, castiçais, turíbulos, ânforas, campaínhas, estantes, cálices e claro custódias majestosas. Também se podem admirar peças de paramentaria: casúlas, estolas e mitra bordadas a ouro.
Neste museu destacam-se os painéis de arte flamenga. São enormes pinturas a óleo sobre madeira, alguns trípticos, muitíssimo bem conservados, mantendo as suas cores tão características. Predominam os brancos e azuis-claros muito brilhantes, na parte superior dos quadros, retratando cenas celestes. Contrastando com o divino reluzente, em toda a parte central e inferior sobressaem os azuis fortes, cor de tijolo e vermelho-sangue nas vestimentas das personagens representadas.
O que mais me impressionou foi uma Última Ceia, pela sua originalidade. Cada um dos participantes desta cena bíblica – Jesus e os doze apóstolos – são peças individuais, esculturas de baixo-relevo, dispostos de acordo com as relações estabelecidas entre cada um e entre todos. Para concorrer para o efeito de uma refeição em volta de uma mesa, foi criado uma espécie de balcão encostado à parede (opção do museu). Muito bonito!

Lá dentro não são permitidas fotografias, mas carimbei a minha visita com fotos da entrada. Vale a pena reparar no chão de calçada.


quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Flores: um Tapete

Flores: Um Tapete para o Senhor (Santana)
Camisa em desalinho e calças sujas eram a roupa de trabalho de um homem, munido de tesoura e baldes que cortava todas, todas! as dálias daquele canteiro. Não eram bem todas, só as que, desinibidas, mostravam as suas pétalas coloridas. O sortido de flores, dentro da mesma espécie, era enorme: as bordeaux, de pétalas enroladindas, a caber na mão em concha, as brancas ou amarelas com pétalas elípticas, compridas e achatadas, e outras cor de sol de aspecto arrepiado sobravam na palma da mão. Todas elas foram separadas de acordo com a cor e forma: três baldes cheios de dálias em flor; um canteiro mais triste.
É por uma boa causa, justificou o jardineiro como resposta ao meu reparo de desagrado.
No dia seguinte quis testemunhar essa causa e o que encontrei foi um deslumbre. Eu, que ando a descobrir um especial interesse por flores fiquei fascinada com o tapete para o Senhor de Santana que muita gente tecia ao longo da estrada onde passaria a procissão.
Quando o jardineiro me informou da festa do Senhor, que teria lugar no dia seguinte, mal podia supor a grandiosidade.
Chegados ao local, encontrámos um estreito caminho de alcatrão preto com uma exuberante passadeira ainda em acabamentos. As cores eram as da natureza, as que as flores quiseram trazer. Os padrões resultavam de combinações infinitas de verdura, ramos, pétalas, pequenas pinhas, folhas, flores, frutos, de acordo com a imaginação e sentido estético de cada um dos decoradores. A diversidade das flores testou o meu conhecimento e pude ir enunciando à medida que passava, durante mais de mil metros: hortênsias, espadinhas, girassóis, dálias, agapantos, gerbéras, buganvílias, coroas imperiais, hibiscos, begónias, malmequeres, brincos de princesa, frésias… Muitas delas improváveis na cor: vi dálias lilases, brincos de princesa matizados de roxo e rosa… A textura verde que servia de base era de pinheiro, alecrim, cameleira, nespereira, feto, buxo e graminha.
Além de todas estas, ainda havia ensiãos,pingos de amor, novelos, não-me-deixes e cevadilhas, que para as enumerar, foi preciso perguntar o seu nome.
Um verdadeiro festival de cor (e de cheiros, segundo me afiançaram o Paulo, a Inês e Francisco).



terça-feira, 5 de agosto de 2008

Curiosidades da Madeira

Carnes Verdes




Estranhas as fotos, não?
Pedaços de carne de vaca pendurados assim, sem qualquer protecção, à mercê do ar, dos mosquitos, se aparecerem… Estão para venda ao peso. Corta-se um naco, pesa-se numa balança antiga com dois pratos. Além dos tradicionais pesos de ferro, também há uma embalagem de sal, mais um kg, portanto.
Depois de pesada, divide-se a peça em pedaços generosos, que se esfregam num tabuleiro de sal, alho e ervas aromáticas. Espetam-se os bocados em longos paus de loureiro e leva-se ao lume que estala logo ali ao lado. Em poucos minutos, uma suculenta espetada fica pronta a ser saboreada. Prende-se o pau, no chão, na carroçaria da camioneta dos comerciantes ou onde der jeito… Com as mãos puxa-se a carne e leva-se à boca. Dizem que é bom!

Abelhinhas
Os táxis da Madeira são amarelos com duas riscas azuis de lado. Antigamente, no campo, chamavam-lhes abelhinhas, porque andavam depressa e tinham um A (de aluguer) inscrito.

Horários do Funchal
Não vou tecer opiniões sobre o carácter pontual ou não dos funchalenses. É sim porque achei estranho este título numa porta, anunciando efectivamente horários, depois vi em cima de um edifico, tipo nome de empresa. Horários? De quê?
Descobri: é uma empresa de transporte de passageiros. Os autocarros que fazem as carreiras do Funchal têm este nome. Há muito tempo atrás, as camionetas da carreira eram tão pontuais, que se acertavam os relógios pela hora a que passavam. Esta é a explicação.

Cristo-Rei
Pois é verdade, a Madeira também tem um!

Mercado dos Lavradores

O clima temperado da Madeira possibilita a cultura de plantas muito diferentes das que estou habituada a ver. As flores e os frutos tropicais fazem parte da vida da ilha e estão à venda no Mercado dos Lavradores, no centro do Funchal, pelas mãos de vendedeiras trajadas a rigor, com as vestimentas tradicionais.
Um festival de cores e formas é o que resulta daquelas bancadas que expõem os produtos que a terra dá. Além dos sobejamente conhecidos antúrios, estrelícias e hibiscos (ou cardiais, como se chama aqui) encontrei também licóneas (pendentes e direitas) e proteias. Um encanto para os olhos.
Noutra banca, além das corriqueiras maçãs, peras, laranjas e dos mais tropicais abacates, anonas, mangas, mamão, ananás deparei-me com diversas espécies de maracujás: maracujá-banana; maracujá-tomate; maracujá-ananás e o vulgar maracujá roxo. Também havia banana-ananás: feitio de banana com escamas de ananás.
Nos legumes destacam-se as semelhas (como se chamam às batatas, por estas paragens). Ainda não consegui confirmar a sua ortografia, devido às diversas formas como já vi escrito. No mercado um letreiro em cartão rasgado anunciava smilhas. É assim que gosto, pelo menos ajudam à pronúncia correcta!